Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
(Caetano)

sábado, 14 de junho de 2014

Saudade


A saudade é um sentimento cretino, e envelhecer se torna um tanto penoso também por causa dela, pois nos faz reconhecer um campo vasto de poesias arraigadas tão profundamente na alma que acabamos por enxergar em muitas coisas lirismos que nunca existiram no passado relembrado. Assim, na velhice, nossa lista de dores ganha o item mais sofrido de todos, por ser o único que não pode ser curado com medicação concreta.

Mas coitada da vida se não fosse este adereço denominado “poesia”, aflorado por letras, melodias, saudades, fotografias! Esse lirismo modifica cores, cheiros, vibrações, e, por causa dele, somos motivados a querer continuar prosseguindo ou voltar e caminhar tudo de novo, pelas mesmas estradas ou por rumos diferentes.

Reticências


As fases da vida precisam ser vividas uma a uma, para que seja mais viável construir um futuro menos cheio de culpas. Contudo, uma coisa é certa: sempre haverá saudade das etapas em que sérias responsabilidades não eram empecilhos ao bom aproveitamento das estações e um arrependimento eterno por não as ter aproveitado mais.

Intensidade não é sinônimo de completude; ao final, permanecerá o desejo de reviver algumas fases muitas vezes, pois as brechas para acertos e repetições serão sempre numerosas. É um jogo complexo, xadrez, com finais sempre culminando em quadros ricos em interpretações e contemplações.

Viver, para mim, é a maior demonstração de amor e caridade de Deus por nós; é tão bom que, quando vejo alguém perdendo tempo com coisas que não valem a pena, tenho vontade de apresentar ludicamente os prejuízos que esse desperdício poderá representar no futuro. Sinto pena, mas cada um precisa se dedicar a sua caminhada da forma como vê e sente, e ninguém tem o direito de interferir diretamente em tarefa tão séria. É preciso continuar, portanto, seguindo do jeito que dá.

sábado, 3 de maio de 2014

Alguém que se aventura, na velhice, a escrever suas memórias


Aventuro-me na tarefa de buscar memórias para guardar. Não que eu tenha pretensão de que sirvam como inspiração ou exemplos a serem seguidos, mas por gostar de histórias e da história em si; por enxergar que a vida não é apenas uma questão de viver, mas de nascer e renascer, diversas vezes, ao longo dela, numa constante tessitura. É nesse balançar de cabeça que tudo vai se esclarecendo e encaixando, ganhando forma e mais vida pelo tom de poesia acrescentado à intensidade dos sentimentos que moram nas recordações. Nesse embalo, os episódios compõem uma narrativa perfeita, com direto a catarses, cores, formas e trilhas sonoras.

Na velhice, mais do que em qualquer época de nossa caminhada pessoal, somos caçadores de lembranças de estações que estejam longe da proximidade do fim. É a fase do check-up, que sonda como foi a existência e o que fizemos dela. Há, sim, beleza na idade, mas há também fragilidade, pelo pesar de não haver ao menos o mesmo tempo para gozar de tudo novamente, com a mesma, ou ainda maior, amplitude.

Encontro-me mais ou menos como Manoel de Barros diz: “meio dementado e enxada às costas, cavando, no meu quintal, vestígios do que fui”. E deparo-me com um homem repleto de experiências desbotadas pelo tempo, mas profundamente realizado na memória e no coração. Descubro o riso onde não cabia; embargo o choro da saudade; deixo que as palavras deslizem pelas frases que remeterão às fases da minha trajetória, numa viagem intensa e cheia emoções para uma alma ansiosa por permanecer, ainda por muito tempo, em um corpo.

Durante o tempo de recolhimento para escrever minhas memórias, pude me certificar, de fato, que só é possível enxergar beleza nas etapas da vida à medida que vamos envelhecendo, e que a temporada mais bela de todas é, sem dúvida, a infância, por ser o início de tudo e o momento em que soltar a alma não é uma decisão e, sim, uma questão de ser, natural e simplesmente, assim.

Certa vez, li, em algum lugar, a seguinte passagem:

"Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome dado, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que acabaram”.

Vivi intensamente esta bela fase. Fui uma criança bem resolvida e cuidada; brinquei muito; aprontei bastante; fiz grandes amizades; fui feliz; tive atenção e carinho. Recordo-me da infância com muito respeito e zelo. Mas foi preciso crescer.